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Gabriela Garrido convida a descobrir seus mundos no EP “Entre”

Todas as fotos por Luisa Queiroz

Em um trabalho muito mais encorpado e menos apressado, Gabriela Garrido aponta as delícias e confusões de uma menina de vinte e poucos anos tentando entender o que é a vida. Entre demonstra um cuidado do início até o fim – a palavra pode ser preposição, sobre estar no meio de duas ou mais coisas, ou flexão do verbo entrar, como um convite. Cada uma das cinco faixas te convida para conhecer um pouco das questões e dos universos de Gabriela, a do palco e a de fora dele. O disco vai ser lançado no dia 5 de maio, no Rio de Janeiro, e mostra novas nuances da artista depois de Mergulho, seu primeiro trabalho.

Ouvir Entre é como uma brisa de ar fresco no fim de tarde, pensando em saudade e no que está por vir. E foi nesse clima que eu conversei com a Gabriela – bebendo uma cerveja no centro do Rio, debaixo de uma luz linda que tá nas fotos da Luisa Queiroz aqui embaixo.


Entre pode ser preposição e flexão do verbo entrar e isso está presente até nos detalhes da capa do disco. Eu queria que você falasse sobre essa intenção.

Depois de organizar todas as músicas que eu queria lançar, eu percebi esse padrão de que eram muitas músicas sobre um vai e vem de medo e coragem, fragilidade e força. É uma coisa meio. No total, é uma parada minha. Todas as músicas começaram a surgir depois que eu comecei a fazer terapia também. E a gente sempre segue em busca desse controle, né? De como administrar as nossas emoções de alguma forma e ter… Terapia é pra isso, pra gente tentar dar um norte pra coisa. Conseguir sempre entender o que tá se passando com a gente. Foi por isso que eu escolhi esse nome. Primeiro foi a questão do meio, de tentar estar e equilibrar minhas emoções de alguma forma, abraçar os dois lados. Eu acho que faz parte ficar triste, viver a tristeza e viver a felicidade. A gente não tem que negar nenhuma das duas. E eu achei que essa palavra, exatamente por ter esse duplo sentido, seria legal por ser uma coisa muito íntima mesmo. Pode entrar, eu sou isso mesmo.

Eu queria entender um pouquinho mais sobre as divisões da Gabriela e da Gabriela Garrido artista. Como que elas tão juntas?

Sinceramente, eu não vejo uma separação porque essas músicas são muito pessoais, elas são 100% eu. Eu artista não consigo me separar do resto, apesar de ainda não viver disso, de ter que buscar outras coisas. De viver fora desse mundo ao mesmo tempo que eu to muito nele. Todas as minhas aflições fora do mundo da música acabam se tornando música . É meio isso. Pela Metade é sobre uma insegurança, sobre aceitação, buscar ser independente. Essa idade, esse momento. E de uma negação ainda muito grande. Eu acho muito difícil fazer essa separação porque o meu lado artista é exatamente onde eu consigo extravasar todas as minhas frustrações e medos.

Sobre a transição de Mergulho para Entre, como o trabalho mudou? Como você sente que cresceu?

O meu primeiro ep eu juntei quatro músicas que eu ja tinha há um tempo. Foi meio extravasado. Eu preciso fazer isso agora, preciso correr. Eu juntei uma galera que tocava e não foi pensado com tanto carinho porque foi feito na emoção. Quero botar isso pra fora porque eu tenho muito mais coisa pra fazer, quero seguir, quero começar. Então eu sinto que o entre foi um processo mais cuidadoso, tive muito mais atenção, por exemplo, pra lançar De Bicicleta antes. Tanto no quesito planejamento, quanto no quesito arranjo, que sonoridades têm a ver comigo. Eu considero Mergulho um EP bem mais Rock n Roll, foi mais agressivo. Minhas referências foram as da adolescência.

Entre já foi mais “olha, eu estou mudando, estou conhecendo novas coisas, botei uma percussãozinha”. Foi esse processo de tomar mais tempo para planejar ele, pra pensar na arte como algo que fizesse sentido – cada música tem uma arte diferente – montar uma equipe pra criar um trabalho maneiro, enquanto Mergulho foi eu fazendo uma coisa pra logo ir atrás de outra, meio sem rumo. Mas amo os dois igualmente, são processos diferentes. Eu preciso fazer pra ver como é. Eu aprendi muito errando no primeiro ep e ainda vou errar pra caralho nesse, mas cada vez mais vai pegando a direção que eu quero.

Qual sua faixa favorita do disco?

Eu acho que Invenção, a última. Eu ainda me sinto muito próxima do que aconteceu, que é sobre sair de um bloqueio criativo e emocional e tentar ver uma luz no fim do túnel. Tentar se enxergar como as pessoas que te amam te enxergam. É sobre acreditar em você e, pra mim, isso diz muito sobre esse trabalho, sobre meu processo como artista. Então, no momento, essa música é a mais certeira nos meus sentimentos talvez.

Pra fechar, queria saber o que te inspirou pra construir o EP.

É difícil. Eu tenho referências da vida, que eu costumo dizer, que é por causa delas que eu comecei a cantar e são muitas bandas que eu ouvi na adolescência tipo Paramore, Yeah Yeah Yeahs, Tegan and Sara, bandas de vocal feminino. Eu realmente comecei a cantar por causa dessa galera. Mas esse disco eu posso pensar em algumas coisas. Cássia Eller sempre me acompanha, eu ouvi muito as coisas dela antes de fazer, até pra colocar a percussão, Johnny Hooker, principalmente em Pela Metade – por querer fazer uma coisa mais visceral. Cada faixa tem uma pegada. Já em Invenção, eu me inspirei um pouco em Mac Demarco. São coisas bem aleatórias mesmo. Escutei muito Frank Ocean quanto tava gravando – tem umas músicas que me pegam muito e a interpretação dele é bem bizarra.

O show do Lô Borges no Circo Voador e sua divisão de águas

Inacreditável esse show do Lô Borges, sério. Assim, eu preciso dizer antes de começar direito que existem significados diversos por trás dele. Significados não só trazidos por mim, como pela Ana Beatriz – redatora e revisora do Autonomia – presente nesse dia também.
Foi a gravação do DVD “do Tênis”, primeiro disco do Lô Borges- pós Clube da Esquina, álbum de artistas liderados por ele e Milton Nascimento – que não exatamente se chama “Disco do Tênis”, o álbum é homônimo, mas ficou conhecido por esse nome.

O próprio Lô define o álbum como “um disco de malucos para malucos”; diferentes matérias falam que “é um álbum à frente de seu tempo (1972)” e, segundo o próprio cantor no show de gravação do DVD, foi gravado às pressas. “Eu fazia música de manhã, meu irmão Márcio Borges fazia letras à tarde e à noite”, dissera para o público presente no Circo Voador. Para Ana Beatriz e eu, o tal “Disco do Tênis” foi uma ruptura de um período ruim.

Existe um antes e um depois desse show, que vai além de todo o repertório, de toda essa grandiosidade do disco. O Lô Borges representa muito pra Ana e a Ana representa muita coisa pra mim, logo, ambos se unificaram.

2017 foi um ano pesado tanto pra mim, quanto pra ela. Algumas perdas de perspectivas futuras, algumas decepções no meio do caminho. Em todos esses caminhos ano passado, Ana e eu estávamos ali uma para a outra. No meio de 2017, decidimos morar juntas com mais uma amiga e olha, foi um perrengue pra achar esse lugarzinho. Em diversos momentos, achamos que nada iria vingar, mas vingou. Muitas coisas que tínhamos perdido a esperança, largado mão, começado a ver com olhar pessimista, está vingando. 2018, por enquanto, está sendo um ano de reviravoltas. Reviravoltas essas que decidimos simbolizar com este show.

De “Você fica melhor assim” até “Toda essa água”, passando pelas canções do Clube da Esquina, como a perfeita “Um girassol da cor do seu cabelo”, foi um show marcado pelo fim e o início de um ciclo. De certa forma, 2018 começou ali, deixando pra trás todos os males ocorridos e certos desamores. Nada será como antes.

Obrigada, Lô Borges.

O Coletivo Amarrilha quer mostrar o potencial de São Carlos pra todo mundo

Amarrilha, segundo o dicionário, é “o cordão ou fio com o que se ata alguma coisa”. Com o mesmo nome e inspiração, nasce em São Carlos, interior de São Paulo, o coletivo composto por Ana Claudia Caixeta, Ana Julia Lima, Andre Amadeu, Bruna Moraes, Bruno Barbato Jacobovitz, Giovani Bogas, Guilherme Leone Vila, Julio Bertacini e Malu Tinôco. Para fazer uma boa utilização do cordão que os une, o Amarrilha surge com a proposta bacaníssima de priorizar os artistas da região e todo o interior, além de levar rolês de todo o Brasil para lá.

Bom, vocês sabem que o Autonomia ama essa galera que descentraliza os eventos das capitais, né? Pois é. Foi por isso que a gente trocou uma ideia com esses jovens incríveis falando sobre o próprio coletivo, os rolês que eles armam e a cena independente atual.

Também lançamos com exclusividade a live da Paola Rodrigues , da Geração Perdida de Minas Gerais, gravada pelo Coletivo, que você pode conferir no final do texto.


Autonomia:  Quais os melhores shows que vocês já viram?

Malu:  O melhor show que eu já vi foi o Sigur Ros em novembro de 2017, porque o show foi foda em questão de imagem e sonoridade, me dando sensações que eu nunca senti na vida e, além disso, eu assisti com muitos amigos, com uma grande parte do coletivo junto.

Giovani:  Sigur Ros também, mas o que eu mais gostei foi o do Baleia, que rolou na mesma época.

Ana Julia:  O melhor show que eu já vi foi o do Sonic Youth no SWU (assisti pela tv mas acho que conta né?).

A:  E os que vocês já produziram?

Bruna:  O melhor show que a Amarrilha produziu, pra mim, foi o da Cora, mas o que eu mais gostei foi um show de quando a gente não tinha nem nome, o da turnê Sem Sair na Rolling Stone do Vitor Brauer, Jonathan Tadeu e Fernando Motta, porque eu amo a Geração Perdida e acho que eles fazem um trabalho foda.

Malu:  Fiquei muito emocionada com o sarau que a gente fez em novembro, foi um rolê gratuito e a gente chamou quatro projetos da cidade, teve palco aberto e as pessoas gostaram demais. Foi muito gratificante.

Ana Julia:  O da Cora, porque a gente se surpreendeu com o que podia fazer. O rolê do sarau também foi incrível, pois nosso objetivo de integrar nosso trabalho com a galera de São Carlos foi alcançado.

A:  Se vocês pudessem armar um rolê com qualquer ser humano ou banda, qualquer um mesmo, existindo ou não, quem seria? E por quê?

Bruna:  Adoraria trazer The Wytches, pois é minha banda preferida. Porém, se for pra ser realista, escolheria a Sakura do Naruto, porque acho que ela tem muita coisa a dizer ainda e acho que sairia um bom punk disso. Ou talvez um spoken word dos tweets do Taison Freda, porque ele sabe falar com o coração.

Malu:  Eu tenho um sonho de produzir um show do Rakta aqui em São Carlos, porque eu amo demais as meninas.

Ana:  Se eu pudesse trazer alguém eu traria CocoRosie, porque ela tem uma pegada lo-fi e transmite uma visão de mundo muito foda com o próprio som.

A:  O que vocês esperam do cenário independente brasileiro daqui pra frente?

Bruna:  Eu espero ver os meus amigos se unam cada vez mais e fazendo as coisas acontecerem, tipo a Pessoa que Voa de São Paulo e a Rapadura Records lá de São João – MG. E, assim, a Rapadura me dá uma perspectiva de que a cena do interior tá crescendo, saca? Já não é uma coisa apenas concentrada nas capitais. Interior tá ganhando voz.

Giovani:  Eu não conheço muita coisa ainda, mas eu acho que as coisas independentes colaborassem mais entre si, não só como colaboração musical, mas arte no geral. Principalmente imprensa que não abre muito espaço pra imprensa autônoma (rs). Conheço pouco, mas gostaria que as pessoas colaborassem mais com coisas novas.

Ana:  Eu não conheço tanto o cenário independente brasileiro, mas acho que a gente tá num momento único, histórico e tem que aproveitar ele. Nisso eu queria que todo mundo fosse menos “bolha” e entendesse que a gente tá num momento mais político. Queria muito ver também mais mulheres fazendo música, porque sempre tem uma barreira quanto a isso e sem competitividade umas com as outras, como sempre é colocada em tudo o que mulher faz.

A:  E o que vocês mais gostam da “cena”?

Bruna:  O que eu mais gosto na cena é exatamente essa junção de amigos, é o “faça você mesmo”, poder ir em show massa sem ter que gastar muito, ver uma galera curtindo os mesmos shows que eu e não colocando artistas em pedestais.

Malu:  Essa coisa de não existir barreira entre artista e público. Nunca pensei que fosse possível ser amiga das pessoas que eu gosto da música.

Giovani:  Gosto de poder saber que posso trocar uma ideia com um artista depois do role. A música fica uma coisa muito mais humana.

Ana:  Eu gosto muito do “faça você mesmo”. É uma perspectiva que se abriu pra todo mundo de que você não precisa da melhor estrutura, não precisa começar sendo foda, você pode experimentar. E também gosto da conexão que a gente consegue ter com o Brasil inteiro. Todo mundo se ajuda.

A:  Pra finalizar, quais são os próximos passos do Amarrilha?

Bruna:  Os próximos passos da Amarrilha são continuar focando em artistas de São Carlos e região e continuar trazendo artistas que a gente quer ouvir.

Malu:  Acho que vai ser muito massa pra gente esse ano, pois agora tem um estúdio na casa do Giovani e nesse estúdio vai rolar muita coisa. Vai fazer com que a gente grave pessoas, grave lives e ajude as pessoas aqui de São Carlos.

Ana:  É um ano de se estabelecer, somos muito novos. É a hora de São Carlos conhecer a gente, pra gente sair desse eixo e levar a galera daqui pra fora. O interior tá com peso esse ano, então tem que trabalhar pra fazer acontecer.


 

O ÀTTØØXXÁ está ressignificando os sons e sinais das ruas de Salvador

Foto: Luisa Queiroz

Todo mundo sabe que a Bahia é vanguarda na música brasileira. O que pouca gente imaginava era que a música do carnaval de 2018 sairia de um quarto. Cama, berço, alguns equipamentos e quatro criativos – Rafa Dias, Osmar ‘Oz’, Raoni Knalha e Wallace ‘Chiba’ – cheios de vontade de botar seus discursos próprios no mundo. É dentro desse contexto que ÀTTØØXXÁ se cria e constrói.

A noção de casa – física ou não – é ponto focal na produção do grupo. O som faz referência ao que está e esteve presente no diário de cada um, sempre somando à experimentação. Salvador também é Norte para a produção sonora e visual dos quatro, trazendo à tona muito mais que a noção limitada de “sol, suor e axé”. De acordo com Rafa, cada pedaço da cidade carrega uma entidade e, pra mim, essa geografia está presente em todo o trabalho construído até agora por eles.

Criado como projeto solo de Rafa Dias, ÀTTØØXXÁ conta hoje com dois discos gravados: É F*DA P*RRA e BLVCKBVNG. O último é uma apresentação do trabalho de Oz e sua vasta experiência no Pagodão. De acordo com os meninos, a ideia é montar uma trilogia em que o foco seja voltado para as ideias de cada um dos membros que embarcaram no projeto. O próximo já tem nome e vai ser assinado pelas pirações de Raoni: Love Box. A promessa é de que vai arrebatar corações e sair ainda no primeiro semestre de 2018.

Além de meter dança até as perninhas pedirem arrego, eu e Luisa Queiroz batemos um papo com os meninos antes do show deles no Circo Voador. O resultado você lê aqui embaixo.


Existe um preconceito muito grande com o som que vem do popular. Vocês abraçam essa sonoridade e somam à identidade do grupo. Queria entender qual a importância dessa mistura pro que vocês constroem.
Rafa: Eu acho que o som que a gente faz é o que tá dentro da gente. Nunca paramos pra ficar analisando o que queríamos fazer porque na real sempre sentimos o desejo de trabalhar com as sonoridades. Oz e Chiba são criados dentro desse contexto. Talvez eu e Raoni sejamos um pouquinho mais de fora, nós já vivenciamos algumas outras coisas, mas isso é o real da nossa cidade e tá no nosso DNA. A gente nasce e cresce escutando e rola um interesse em trabalhar com a música popular e conseguir dar, talvez, a nossa visão de mundo. Muito do preconceito que rola é pela música ter um apelo imediato, de querer atingir rápido. O termo putaria da música de Salvador veio de alguns referenciais do Rio de Janeiro. Ali em 2005, o som do Rio começou a ir com força pra lá e surgiram os primeiros pagofunks. A gente não tira como ruim ou como bom. Faz parte da sua vida. Às vezes, a gente tá julgando uma pessoa e nem passa na cabeça dela que existe uma atrocidade com as minorias.

Raoni: É muito da vida dele ali. Você tá na comunidade e lida com várias situações que são adversas a outros tipos de coisas que são normais aqui.

Oz: O cara passa, me respeita, pede a bênção pra tia…

Raoni: E aí já vai pra putaria [risos]

Rafa: A gente tenta dar um novo olhar e sempre conversou sobre tornar isso possível. Lá pra Salvador mesmo existe a onda de querer se adequar a um formato e acho que o que a gente tá fazendo é justamente pra mostrar que existe uma diversidade de coisas que podem ser feitas com os ritmos populares. A gente realmente vai a fundo no que quer propor. Fizemos o disco de Oz, BLVCKBVNG, todo em tom menor pra mostrar uma outra forma de pensar Salvador – que é muito vista como sol, sorriso e tom maior. Temos a preocupação de nos comunicarmos com a cidade que existe e que é capaz de fazer outras coisas além do que sempre existiu.

Ainda um pouco nesse lugar, em termos de produção, como vocês trabalham as referências do grupo? Vocês sentem que a galera faz uma reflexão sobre de onde vem esse som e o que ele carrega?
Rafa: Nós separamos um momento do nosso show pra dar um pouquinho de referências que nos criaram também. Quando pensamos nesse momento era pra justamente mostrar que existe uma linha histórica atrás de nós. Passamos pelos sambas de roda, pelo pagodão das antigas mesmo. Pelo menos na Bahia, sinto que o que tá acontecendo nesse contrafluxo em que rolou toda a indústria massiva é justamente isso. A música chegou a um ponto de explorar a galera. Os músicos sempre tiveram o desejo de fazer algo novo. Mas o empresário ditava o que dava certo.

Rolou uma movimentação de colocar as músicas numa caixinha do que vende.
Rafa: E quando se faz isso, você sabe que a música fica com uma durabilidade. Você bota na caixa ali pra 5, 10 anos depois. Mas no momento, ninguém mais vai tar aguentando.

Dá uma impressão de que é sempre a mesma coisa, que no carnaval rola a mesma coisa.
Raoni: Acredito que foi isso que ditou um pouco o pessoal que tinha grana pra fazer lá. Rolou um impasse porque muita coisa que queria emergir era escanteada pela galera: “vamos reproduzir só isso aqui mesmo porque tá dando dinheiro pra gente”. Parece que a gente surge como revolução nesse momento porque as pessoas ficaram carentes de som. Eu acredito que a nossa ideia é passar tudo que pegamos ali, o que queríamos externar e não deixaram. Agora a gente ta fazendo isso aí.

Vocês sentem que foi uma movimentação natural? Citando o BaianaSystem como exemplo, que é uma galera que tá trabalhando aí há mais de 10 anos, rolou uma influência disso?
Rafa: Na real, antes de Russo sempre existiu o interesse na Bahia. Acho que o Baiana é o ponta de lança que conseguiu se comunicar com o público. Esse público lá em Salvador ainda é muito de classe média. Acredito até que por isso essa bolha quebrou – é quem consome e tem poder de compra. Mas se eu te der um paralelo, antes do Baiana já tinha muita coisa acontecendo, inclusive no próprio pagodão. Oz participou de muita coisa foda. O Shake Style, por exemplo, era uma banda que fazia música baiana e eletrônica e que era guetão mesmo.

Oz: O Psirico também.

Rafa: Acho que duas coisas ajudaram no impulso maior. Uma é a internet, que deu visualização e alcance. Até pouco tempo atrás a gente pensava em 10.000 pessoas de alcance. Hoje a gente sabe e estuda os mecanismos da internet. As pessoas fora do eixo indústria começaram a entender que tinham uma ferramenta que não dava pra frear e conseguiram entender como se comunicar na internet. Outra coisa que eu acho que ajudou nessa virada rolou especificamente lá em Salvador, o Furdunço – que é o carnaval fora de época. Antes existiam os blocos, as cordas e todo um conceito de carnaval. Quando criaram o Furdunço, o governo fez uma espécie de mini trio-elétrico com bandas que eram fora do eixo e que também seguiam linhas diferentes – da fanfarra até a música para crianças. Tem toda uma diversidade que a cidade não tinha visto até esse momento de festejo. O BaianaSystem foi um dos primeiros a conseguir entrar nesse mecanismo, até porque eles têm duas gerações a mais de estudo. A gente vem de outra parada. São duas gerações depois, então pra gente conseguir captar e entender como funcionava… tudo começou pela gente mesmo. Fizemos nossa festa, a festa começou a bombar…

Oz: Fizemos o quarto de estúdio… [risos]

Rafa: A gente começou tudo lá no nosso quartinho.

Oz: E o pessoal achando que a gente tava produzindo em estúdios. Como cai na tese que Rafa falou, a internet chegou e abriu espaço. Mais democrático.


Foto: Luisa Queiroz

E como começou a ideia de fazer som dentro de casa?
Rafa: Eu comecei a ver isso fora do Brasil por conta de uma cena chamada Ghettotech que não sei se hoje falam muito sobre. O Kuduro, a Cumbia Eletrônica, o Dancehall, o Reggaeton e muitos outros ritmos feitos muitas vezes por pessoas que tão em casa sem uma força externa dizendo pra você se enquadrar. O que aconteceu foi isso: a gente é realmente livre quando tá no nosso quarto. A gente conversa e estuda o que quer fazer também, mas tem a liberdade de estar no meu quarto, minha filhinha brincando. Era o mesmo quarto com a cama de casal, o berço dela, as caixinhas de som e a gente trabalhando. Se cria um ambiente de liberdade que transparece na música. Existem bandas com algumas normas de conduta e a gente tem liberdade de sair, fazer o ensaio do nosso jeito. Muita gente achava que não tinha como a gente dar certo dessa forma.

Raoni: A gente faz o esboço e no final a filha de Rafa é a primeira a entregar. Começa o groove lá e ela já dança. Aí já bateu.

Oz: Na barriga ela já escutava. É uma coisa muito família. Acho que o que simboliza esse momento da gente é a verdade. Você poder ganhar a música do carnaval da Bahia e ao mesmo tempo ser elogiado por mulheres. Nossa intenção é de passar tudo da melhor forma possível. O que acontece é isso: família. Esse é o resumo.

Rafa: Oz definiu a parada: verdade. O pós-indústria era meio plástico, meio fakezão, de se enquadrar. “A verdade da cidade” era uma frase que existia no movimento das antigas que ele participava. Era muito genuíno e a gente tá tentando trazer isso de volta, mas de outra forma.

É reflexo de ser independente também, né? Poder peitar e fazer da sua melhor forma.
Rafa: E trazer as pessoas que acreditam nesse formato. Nós temos hoje uma equipe de produção e assessoria que ajuda no nosso trabalho, até pra podermos estar livres pra fazer o que mais queremos, que é a música e o visual. Então, ter essa equipe que acredita nisso é importante porque quando começamos a receber proposta de tudo que é lugar, a primeira coisa que falamos é que nosso trabalho é desse jeito e isso não vai mudar nunca.

A estética de vocês nas redes sociais é muito bonita. Essa preocupação tá presente em tudo é diferente do que tá na “caixinha”. Fala um pouco sobre isso.
Rafa: Total. Na real são duas coisas. Eu tinha uma necessidade imensa de fazer clipe. O vídeo é super importante. O que aconteceu foi que a gente não tinha como fazer, não tinha como pagar alguém, não tinha nada. Decidi investir em conhecer essa porra. Comecei a procurar no YouTube como fazer, comprei uma câmera velha e fuleira e os vídeos foram rolando. Tudo feito em casa ou nos lugares em que a gente passava. Pro clipe de BLVCK BVNG, fomos fazer um show em Camaçari. Chegamos lá e era um teatro fechado com um fundo escuro. Os lugares foram nos levando ao clipe e depois começamos a pensar, mas as imagens surgiram assim.

Com Elvs Gostam, fomos pra casa de um brother que tinha um espaço – Pedro -, alugamos meio mundo de luz e rodamos. A gente tem essa preocupação e pensa minimamente como seria um corte. Não tem técnica, mas me amarro em conhecer essas coisas. Hoje tem um pessoal que faz isso pra gente que são uns vermes mesmo. Pessoas como a gente também que tocavam comigo, começaram a trabalhar e eu chamei pra estar junto. Bruno Zambelli, que é monstrão, tá cuidando do nosso conteúdo visual e o Rafa, que tá cuidando da nossa filmagem. Daqui a pouco você vai ver eles aí, é a mesma galera.

Dá pra ver que tá bem produzido e não é forçado.
Rafa: Tem o interesse de comunicar. Acho que a genialidade das coisas surge do mínimo. O Funk veio com o tum ta ta e em três toques o cara faz um hit. O mesmo pro vídeo né. Você conseguir captar e transformar isso num olhar claro. A gente é pela arte. A gente tem o interesse na arte e na comunicação. É transformar. Agora a gente tá trabalhando com pombos. O pombo que a gente vê em todo lugar e que é escanteado. Por isso, por ser jogado pra escanteio, que faz parte da nossa vivência de jovens negros. Ontem mesmo fomos pro hotel e o cara não queria deixar a gente entrar. Ele era igual a gente. Lá em Salvador tem uma expressão chamada “pombo sujo”. A gente é pombo sujo mesmo e começou a trampar com isso. Ele que tá em todos os lugares, então vamos transformar essa parada na raça.

Salvador tem uma questão territorial muito específica e isso influencia o conteúdo que vocês produzem. Como é esse desenvolvimento?
Rafa: Salvador, para além de tudo que é enlatado lá, tem manifestações e falas em seus lugares como o Pelourinho ou a Ribeira. Em cada bairro existem entidades. A cidade é muito, cada bairro tem sua especificidade, ao mesmo tempo que vocês olham pra lá como se tudo fosse axé. A gente tenta realmente transportar um pouco do que a cidade proporciona. Um retorno do que a cidade nos entrega. Por exemplo, as questões das minorias são coisas que a cidade nos dá, ela querendo ou não. A gente tem que conviver com isso. A violência também é dada pra gente. Tudo isso faz com que a gente escreva e pense na nossa música. A gente recebe relatos das meninas que ficavam desconfortáveis com os olhares nos shows de Pagode e uma galera hoje fala pra gente “que foda ir pro Pagodão e conseguir rebolar sem você estar cantando pra mim”. Os gays ocupam a nossa frente e fazem miséria porque eles se sentem realmente abraçados. A cidade vai nos dando tudo que a gente externa – seja no beat ou na letra. Esse primeiro momento todo do ÀTTØØXXÁ é muito mais baseado na cidade do que em coisas internas nossas mesmo.

Elas Gostam virou música do carnaval e eu queria saber como foi um pouquinho do processo pra chegar aí. O que voces tem recebido de retorno?
Rafa: Acho que como Oz sempre fala, isso é um exercício pra gente manter o pé no chão ali, porque o sucesso mesmo é fazer o que a gente faz amando. A gente ama o que faz, consegue botar música pra qualquer pessoa escutar, sabe? Sem forçar a barra. Muito mudou desde o boom da música. Nossas redes sociais são prova disso.

Oz: A gente também sente essa influência com as bandas já querendo impor uma outra personalidade e postura. E isso é muito importante, é muito bacana. Acho que é muito bom, principalmente quando você chega com uma música que tem um apelo tão forte.

Rafa: A gente sempre acreditou na música no início do início. Bolamos um plano interno de fazer uma trilogia, né? Eu comecei o ÀTTØØXXÁ sozinho, lancei o primeiro disco. Pensamos em fazer o disco de cada um apresentando quem entrou no projeto. Falei pra Oz tomar a frente e ele já tinha muito material. Oz vem de uma criação de mundo baseada na oralidade. Ele não escreve letra, não esquece e muitas músicas do BLVCKBVNG não saíam da nossa cabeça. Ele cantava, ia pra casa e quando eu via tava cantando o dia inteiro. A gente tem interesse em transformar a música popular baiana. Dar nossa versão disso buscando referências do mundo. Queremos comunicar com o máximo de pessoas. Quando Oz vem com esse som que é puramente Bahia, a gente tenta transformar isso em algo que qualquer lugar do mundo consiga escutar. Agora mesmo, mandaram um vídeo da Queen Latifah dançando e improvisando em cima de Elas Gostam. Conseguimos dialogar com uma pessoa que é expoente do que a gente vê no pop. Ela tá lá, querendo cantar em cima e a gente conseguindo passinho a passinho chegar num lugar que sempre almejou.

E como foi o trabalho com Márcio Victor? Vocês tiveram liberdade pra deixar o dedo de vocês no trabalho. Não foi dado de bandeja. É uma parceria de ÀTTØØXXÁ e Psirico.
Rafa: Márcio, antes de tudo, antes mesmo da gente lançar o BLVCKBVNG, foi o primeiro cara que ouviu e quis gravar a música. A gente tava perto de lançar o disco, ansiosos, mas preferiu segurar e depois, mais pra frente, Márcio gravaria. Essa música, se a gente deixasse qualquer outra pessoa trabalhar, poderia vir com outro olhar e a mensagem se perderia. Então, a gente fez questão de estar ali, conversar com ele, explicar, levar a banda pra estúdio e transformar em outra coisa. Raoni botou um pedaço de outra letra, Márcio gravou a percussão toda. A gente fez questão de que fosse uma troca e não um simples “vai lá e faça”.

Oz: E em respeito também ao público que já ouvia a música na nossa interpretação. Seria também um desrespeito a quem acompanhava a gente e fez a música acontecer em nossas festas. Outra curiosidade sobre a parceria com Márcio é que somos do mesmo bairro. A gente é nascido e criado na mesma rua e isso facilitou um pouco. Mas Rafa também já tava tendo uma vivência com ele em alguns estúdios aí, já tinham se trombado.

Rafa: Para além de tudo o que fez a música acontecer, foi o desejo de fazer uma parada junto

Raoni: Um respeito mútuo, acredito que seja isso. Tanto a gente – que já sabia de toda a carga que seria gravar com ele e a expansão disso -, quanto ele, que sacou o potencial do trabalho que a gente já vinha fazendo, do jeito que a gente pensa, do que a gente quer externar pra todo mundo. Ele teve um cuidado, um carinho, um respeito tão grande pela gente que quis fazer da nossa maneira. Quis somar. A gente sabe que existe um pouco de competitividade no axé. Mas ele foi muito safo, nos deixou à vontade e foi um trabalho de união – por isso que rolou esse retorno que tá acontecendo.


Fotos: Luisa Queiroz

Fala um pouquinho do que vem por aí. Qual o próximo passo da trilogia?
Rafa: Acredito que saia ainda no primeiro semestre. A gente vai lançar o disco de Raoni que é o segundo da trilogia. BLVCKBVNG mostrou uma Salvador nublada e eu sinto que o disco de Raoni traz a canção, que tava um pouco perdida na cidade. Uma leitura que eu tenho é de que Salvador começou a virar um oba oba, sem querer dizer se isso é bom ou ruim. Quando ele começou a trazer as primeiras músicas, eu de cara achei super necessário pra esse momento – trazer uma outra visão, um outro DNA de música. O disco tá muito baseado em canção, ele [Raoni] tem criação no samba e no R&B. Comunica muito com o Rio.

Raoni: Esse disco vai trazer uma coisa que não se viu nem no primeiro nem no segundo, que é justamente a parte melódica. Foi muito natural trabalhar nele. Não foi imposto da gente usar essa linguagem pra essa música. A experiência do BLVCKBVNG já era de Oz, a concepção de Rafa no trabalho de produção que ele já vem estudando já era dele, tá presente nos dois discos. Chibatinha veio somando com a guitarra mais fudida que existe no Brasil. Todo mundo tem um pouquinho ali, é 25% de cada. Acredito que esse disco vai ter 25% a mais. É como se ficasse cada vez mais claro o que cada um quer mostrar, como cada um trabalha. É talvez até mais simples o uso de palavras, o entendimento – ÀTTØØXXÁ tem uma tipografia, tem uma questão que vem desde o É F*DA P*RRA que era mais pesado. Agora a gente tá tentando deixar isso mais simples e acredito que essa simplicidade vai trazer uma sonoridade mais comum aos ouvidos e que promete que esse disco seja arrebatador de corações.

Oz: Já deu o toquinho aí

Rafa: E vai se chamar Love Box.

E pra fechar, queria saber o que vocês tão pirando de ouvir.
ÀTTØØXXÁ: OQuadro, Pedro Pondé, Anderson .Paak, Daniel Caesar, Afrocidade, Larissa Luz.

Raoni: Lá em Salvador tá rolando uma onda massa. Acredito que a galera pode voltar os olhos pra lá, não só com a questão da música e não só com um gênero musical, mas todos os leques. Tem também o Baco Exu do Blues que tá fazendo sucesso aqui com o Rap.

Rafa: O que eu tô vendo lá na Bahia que a gente pode indicar é uma parada enorme e sem uma digital muito clara. É aquela digital toda bagaçada. Tem desde Baco que é um Rap mesmo, o afrobeat de IFÁ, uma big band de música baiana que é o Afrocidade, OQuadro que é um roots da bahia. A gente deixa a Bahia inteira pra vocês

Raoni: E pode pesquisar negão, que lá o bicho tá pegando.

As mulheres na Vekanandra de Luísa e os Alquimistas

Foto por Luana Tayze

Lançado em parceria entre os selos PWR Records e Rizomarte, Vekanandra é o segundo registro gravado em estúdio pela potiguar Luísa e os Alquimistas. O sucessor de Cobra Coral conta com a produção de Walter Nazário (Mahmed) e marca grande amadurecimento do projeto liderado por Luísa Guedes, acompanhada dos músicos Zé Caxangá, Gabriel Souto e Pedras.

O álbum funciona como um todo ao longo de suas sete faixas apresentando o início, meio e fim da história dessa personagem que dá nome ao disco. O título curioso vem do clássico meme Lohany Vekanandre Sthephany Smith Bueno de HAHAHA de Raio Laser Bala de Icekiss e também trata de uma espécie de alter-ego da artista. Ela conta que sempre brincava com o vídeo e recebeu de alguns amigos o apelido Veka.

Flertando com a palavra falada e tendo forte influência de ritmos como tecnobrega, ragga, hip hop e otras cositas más, o trabalho é resultado de uma pesquisa que vai muito além da música. A história de Vekanandra atravessa a vivência de mulheres que performam e tiveram sua humanidade ignorada. Para além da figura à frente do palco, o disco trata de vida, passagem de tempo, velhice e morte: “Vekanandra é essa entidade, a diva que de alguma forma me atravessa por essas histórias todas, por minha afrodescendência e por ser mulher. Ela é feita das histórias de mulheres e é isso que a gente tem em comum. Nesse disco ela nasce e morre.”

Luísa define uma linha de referências com mulheres – famosas ou não – ao longo de momentos históricos pensando o passado como abertura para que novas artistas pudessem botar a cara no palco. A ascensão e queda das vedetes mexicanas na década de 60, marcada pelo documentário “Vedetes en el olvido” (Vedetes no esquecimento); a trajetória de Amy Winehouse; a imagem que Dercy Gonçalves representou para o teatro e a televisão brasileira e até Canti, a avó de 106 anos de uma amiga pessoal, foram algumas das figuras que definiram Vekanandra. Batemos um papo para entender melhor quem é essa personagem que o grupo apresenta.



Quais foram as principais referências (não necessariamente musicais) pra construção dessa identidade e do álbum?

Essa brincadeira com o nome tá comigo desde antes de começar a cantar. Cantar e compor é recente dentro da minha trajetória como artista. Quando eu tava compondo e pensando do que se trataria esse disco, eu comecei a fazer uma pesquisa e ficar bem fascinada e interessada pelo universo das mulheres artistas da música, da cena, da dança e tudo mais.
Uma das coisas que me marcaram foi um documentário chamado “Vedetes en el olvido” (Vedetes no esquecimento) e conta algumas histórias bem cabulosas sobre as vedetes no México. A mudança de uma ação mais artística e glamurosa se tornando mais sensual e sexual para se manter no mercado.
Eu tava vivendo um período de aceitação do meu lugar como cantora, de estar sendo exposta. Se a gente como mulher tem muitas nóias com relação à aparência e o que as pessoas vão achar, imagina quando você tá sendo sempre exposta. Todos esses questionamentos sobre a indústria musical e o quanto se suga dessas figuras. Junto das vedetes, veio também a história da Amy Winehouse. A maneira como ela morreu, o quanto ela foi sugada pela fama. São histórias fortes e tristes que sempre me encucaram.

A Vekanandra é essa figura que tem que estar sempre bem plena e diva quando tá com o público, mas isso nem sempre acontece quando ela tá em casa. Fala muito dessa dualidade. Quando eu tava no processo de pesquisa, eu ainda não tinha um nome. Eu sabia que precisava ser um nome próprio, o nome de uma pessoa. Foi aí que eu comecei a pensar em nomes que marcaram pra mim. O nome foi ganhando espaço dentro do processo. Ela é esse meu lugar de exposição, de estar na música e de estar sendo tocada por todas essas histórias dessas mulheres. É quase uma entidade.

Afinal, quem é Vekanandra?
Quando você me pergunta quem é Vekanandra e quais são as referências pra esse álbum, ela é todos esses recortes, todas essas colagens dessas musas, divas e entidades que marcaram a história. Isso foi algo que a gente deixou de cara no trabalho com os recortes de samples que a gente faz na Leona Vingativa, a própria Lohany Vekanandre, Inês Brasil, passando pela Dercy Gonçalves na última música (Barca de Oro). Nela também tem o áudio da Canti, que é a avó de uma amiga minha, Paula. Ela me mandava muitos áudios da avó, que tem 101 anos e se tornou uma inspiração.
Foi bem massa quando caiu a ficha de que eu deveria tratar da velhice nesse processo também. Tratar de mulheres como a Dercy e eu me atentei pra isso quando andava trocando esses áudios com minha amiga. A gente escolheu alguns trechos e usou o sample em Barca de Oro. A música fala sobre partida e é uma forma bonita de falar da morte. Trata sobre velhice, morte e esses fantasmas. A parte mais fantasmagórica dessas divas que vão permanecendo e indo embora devagar. Só o que tá presente na voz e o que elas falam já é muito forte.

O disco fala em alguns momentos sobre a indústria, o disco foi viabilizado com ajuda de um financiamento coletivo. Ser independente e acessível é um lance importante pra Luísa e os Alquimistas?
Nunca tinha parado pra pensar nisso de uma forma tão clara. As coisas acontecem e a gente vai fazendo as melhores escolhas de acordo com o que a gente tá fazendo com a música. Eu comecei cantando soul, blues, depois fui pro reggae, pop, depois fui pro brega, tecnobrega. Tô flertando muito com a palavra rimada, com o ragga, o rap. A partir do momento em que você surge mostrando essas facetas, as pessoas, às vezes, esperam que você siga uma certa linha. Não só as pessoas, como a indústria que eu falo na música.
Eu não sei muito bem hoje em dia o que significa ser independente. A gente não vive mais essa realidade das gravadoras, mas de alguma forma tá sempre almejando conseguir algum tipo de apoiador que tenha afinidade com a música e tope desenvolver o trabalho. Às vezes você tá preso a uma estrutura maior onde você tem que prestar conta do som que tá fazendo, pra onde você ta indo na música. Uma pessoa que brinca com tantas linguagens diferentes dentro da música ficaria um pouco limitada, então acredito que a nossa ideia é de seguir experimentando e estando livre pra fazer isso.

Ainda sobre isso, o que é ser artista pra você?
Tem sido a maneira que eu encontrei de me colocar no mundo, me expressar e curar certas mazelas. Mais que nada, fazer arte é quase uma atividade terapêutica pra mim e eu levo isso muito a sério. Até demais às vezes. Sou muito exigente comigo e com quem trabalha comigo. Ao mesmo tempo, eu tento ser generosa e saber que por mais que eu esteja bem assessorada, todo esse trampo com a banda é muito meu corre. A banda existe porque eu juntei essas pessoas pra fazer esse som que eu sempre direciono e eles somam com a sensibilidade musical incrível deles. Então estando ciente de que isso é um corre meu, das minhas músicas, eu tento ser generosa também de saber valorizar muito a importância dessas pessoas que tão por perto.
Eu comecei a dar essa atenção maior pro meu lado musical depois dos 25 anos. Foi uma grande descoberta de mim e justamente quando a gente passa a entender isso como um trabalho, uma maneira de fazer seu corre, de sobreviver, de tentar estudar mais, ser melhor, fazer parcerias com pessoas que você admira… Eu ando muito rodeada por essas vontades e com esse foco. Eu tenho muita gratidão por estar conseguindo fazer as coisas e dando minhas aulas de tecido, fazendo minha grana. Mesmo com todas as dificuldades eu sou grata a tudo que esse trabalho com a arte me trouxe. Essa é minha maneira de estar no mundo.

O Cobra Coral guarda muitas referências musicais vindas de diversos cantos. Algumas tão bastante presentes em Vekanandra, mas de uma maneira um tanto quanto diferente – talvez mais amarrada. Você sente que foi uma transição natural? Como você vê as mudanças do primeiro pro segundo disco?
O primeiro disco veio como necessidade de compor e aprender a fazer, fazendo. É minha primeira experiência com gravação e composição. Fomos juntando as músicas e surgiu assim. Fiz algumas e chamei o Gabriel pra gravar um EP. Conforme gravamos pro ep, surgiram outras e quando vimos, já tínhamos 9 faixas. Todas conversam entre si, mas como recorte de um período da minha vida. Elas tão unidas por isso – por um momento em que fizeram parte, na descoberta de um universo com o frescor de um primeiro trabalho. Para o segundo, eu já quis fazer algumas coisas de maneira diferente, já pensando no que fica melhor pro próximo. Tô bem empolgada com o que pode vir em sequência. Tentar amarrar e fazer um disco onde as faixas conversem entre si e tenham uma ordem proposital, construir uma narrativa me pareceu muito interessante e desafiador. Eu fiquei bem feliz com a evolução – não que um trabalho seja melhor do que o outro, mas sinto que estou passando nas fases desse vídeo game.

Como você sente esse momento da cena em Natal? Vocês dividem espaço com uma galera super talentosa.
Esse é um momento especial da música aqui. Acho que a gente estar localizado geograficamente aqui e às vezes não ser rota de eventos de grande porte que fazem itinerância pelo Nordeste fez com que se criasse uma maneira especial de fazer música. Temos figuras muito interessantes vindas de diversas maneiras de fazer música. O bacana é ver mais gente daqui conseguindo circular pelo Brasil, como o Far From Alaska, Plutão Já Foi Planeta, que tocaram em grandes festivais, aparecendo na mídia. O Mahmed, o Anderson Foca com o DoSol, circulando o país inteiro e fora dele com suas bandas, mediando mesas importantes. Ana Morena, também do DoSol, uma forte fazedora da música aqui. Citar o DoSol como um festival importante é bem pertinente. É uma vitrine foda. É um festival que resiste aqui e a gente admira bastante e preza pra que ele continue existindo. A gente tá num momento, inclusive, de se inspirar, aprender o que fazer e como fazer. É massa saber que a coisa tá se proliferando. Estão surgindo outros selos, outras articulações, a fim de tornar a coisa muito mais plural.
Natal hoje em dia tá vivendo um movimento forte nas artes: teatro, cinema, fotografia, artes visuais, dança. A gente tem todo esse material humano de artistas incríveis, mas vive numa cidade com muito desleixo do poder público. Falta qualquer tipo de política pública que incentive a produção de material cultural que ajude as pessoas a circularem. As condições não são favoráveis e talvez isso nos traga uma garra ainda maior. Mesmo assim, a gente tá com essa galera toda fazendo o som que tá fazendo e eu me sinto muito orgulhosa por poder fazer parte desse recorte cultural da cidade.

Curiosidade: letras em outras línguas – espanhol, inglês, francês – tão bastante presentes nos dois trabalhos. Queria saber de onde vem isso.
Surgiu naturalmente como ferramenta de composição. Sempre me deu mais possibilidades de rimar, de juntar a métrica e o que tá querendo ser dito. Eu falo essas línguas superficialmente, principalmente o inglês – cometo muitos erros gramaticais que tão presentes e gravados aí pra todo mundo sacar. Brincar com as línguas parte do lugar de alguém do “terceiro mundo” que quer ser entendida, digamos assim. Não por fazer coisas para os gringos ouvirem, mas de conseguir ser entendida de várias formas, falar de lugares diferentes. Cada idioma que eu canto traz um som diferente com várias facetas. Uma grande referência de quem faz isso é o Manu Chao e eu acabo mesclando as línguas que ele também mescla. Faço essa mistura com o francês, espanhol, português e inglês, que por coincidência são os idiomas que eu tenho um pouco de contato.

Agora mudando um pouco o foco, fala um pouco das suas influências musicais. Como elas fazem parte do seu processo artístico?
Não que eu não escute homens, mas a quantidade de mulheres que eu escuto acaba sendo bem maior. Eu sempre fui muito eclética e acho que isso fica bem visível no trabalho. Gosto de muitas coisas diferentes. Também fico muito atenta às músicas que tão sendo ouvidas e feitas nas periferias – funk, tecnobrega, bregafunk, transareggae, swingueira – sempre gostei de detectar as misturas que as pessoas tão fazendo com muita criatividade e poucos recursos. O popular sempre me fascinou bastante. Nesse caso, acabo escutando caras e gosto de ouvir o que eles tão falando – até de maneira bastante sexista -, pesquisar essas linguagens, essas sonoridades que são envolventes e fazê-las no meu lugar de mulher. Pra construir o disco, ouvi muito trap, hip hop, dub digital, trip hop, mesclando com essa linguagem mais popular pra construir as métricas.

Ano novo, Talude nova

Já diziam algumas (várias) línguas “ano novo, vida nova” e, aqui no Autonomia, nós levamos isso muito a sério. Nós e os meninos da Talude.

Iniciamos 2018 com um lançamento da banda natalense composta por Victor Romero, Jônatas Barbalho, Felipe Beniz e João Victor Moura: uma nova versão da música “Rvptvra” (originalmente “Ruptura”), presente no EP “Fragmento”, lançado no início do ano passado. “É meio estranho falar de um formato eletrônico para a Talude, até porque algumas músicas que tocamos com banda nasceram de coisas que surgiram com sintetizadores e beats”, diz Victor. “Nós flertávamos com a ideia de criar um formato que possibilitasse levar nosso som ao vivo para outros ambientes que, muitas vezes, não comportavam uma apresentação com banda completa”.

2017 foi um ano para a Talude se reinventar e iniciar 2018 de uma forma diferente. “É quase como se estivéssemos pegando nossas músicas e traduzindo elas para outro idioma”, finaliza Vik.

A session eletrônica de “Rvptvra” você pode conferir abaixo com exclusividade.

 

A Ventilador de Teto é uma barbaridade

A banda Ventilador de Teto é nova no pedaço, literalmente, porque a gurizada é jovem. Composta por quatro meninos da Baixada Fluminense e com um EP tudo de show, o Desejo/Sufoco, eles entraram no cenário independente com críticas positivas sobre seu som e uma parte disso se deve à incrível Bárbara Martins, a mulher por trás de tudo o que eles fazem e a “opinadora” oficial da VDT.

E é sobre a banda, influências e Bárbara que eu e Isabelle Vímara conversamos com a ‘Ventilador’ lá em Duque de Caxias.


Vamos lá… Pergunta básica: quais as influências da banda?

VDT: Inicialmente, a gente fez um top 5 e tinha Velvet Underground, Bob Dylan, The Strokes, The Smiths e The Beatles.

O quão importante pra vocês é a questão da autenticidade? Porque dentro da cena existem muitas críticas sobre as bandas serem genéricas, não de uma forma negativa, claro. Mas qual o diferencial de vocês em relação a isso?

VDT: A gente copia tudo. Nada é original, é só você saber disfarçar, deixar as coisas entrelinhas. Acho que quando você copia uma coisa, tem como copiar descaradamente, mas botando uma dose de espaço em cima disso, adaptar pra sua realidade, dar um toque pessoal.

Se vocês fossem escolher uma banda, da cena ou não, pra abrir um show seria qual e por quê?

VDT: Tom Gangue, porque é a banda que quando a gente tá triste, deixa feliz. A Tom é diferente de tudo que tem no cenário independente. Eles querem fazer música pra gente dançar e a gente ama isso.

Quais são os próximos passos da banda?

VDT: No momento a gente tá coletando grana pra gravar nosso novo disco.

Qual a relação de vocês com o público feminino como indivíduos, não como musas inspiradoras?

VDT: A Ventilador tem a Bárbara, um “membro” primordial pra gente. Ela faz tudo relacionado ao marketing. 90% do clipe de “Desejo/Sufoco” foi ela quem fez. Ela fez nossas fotos novas, nossa camiseta e tudo o que a gente faz passa pela aprovação dela antes. Além do mais, a Bárbara não deixa a gente ser babaca, o que é o mais importante.

Focando na Bárbara agora. A gente quer saber qual a sua influência dentro da Ventilador de Teto, sua relação com eles no geral.

Bárbara: Eu sou amiga dos meninos e também faço comunicação, então passo pra eles tudo o que estudo pra eles melhorarem alguns aspectos da banda, tipo um editorial. Ajudo com a parte de divulgação, com ideias pra melhorar o alcance da VDT dentro e fora do cenário independente. Eu realmente acredito no potencial deles e tento auxiliar no que posso no sentido mais técnico, sempre fazendo eles melhorarem.


A Bárbara, além do marketing da banda e auxiliadora em grande parte das coisas da ‘Ventilador’, também faz as fotos de vários eventos da Valente Records, um selo fluminense que vem crescendo cada dia mais, e que conta com a Ventilador de Teto no casting.

Se depender desse suporte e de como as coisas estão andando pra Ventilador, no caminho deles só pode dar bom e torcemos muito pra isso, porque conteúdo, qualidade musical e um mulherão pra ajudar e torcer eles têm. E de sobra.

 

‘Letrux Em Noite de Climão’ e as múltiplas faces de Letícia Novaes

Foto por Marina Novelli

Letrux Em Noite de Climão é o primeiro disco de Letícia Novaes pós-término do projeto Letuce, que ficou em atividade de 2007 a 2016, reuniu uma legião de fãs e foi marcado por uma despedida calorosa no fim do ano passado em Paquetá, no Rio de Janeiro.

O novo trabalho é resultado de uma campanha de financiamento coletivo e mostra outra face da cantora/compositora/atriz/escritora. Um retrato mais noturno, que se entrega pra vida e suas múltiplas possibilidades como numa pista de dança (literalmente). Referências dos anos 80 ao longo das onze faixas, o disco ainda conta com uma participação de Marina Lima em “Puro Disfarce”.

O Climão vem sendo muito bem recebido pelo público e contou com casa cheia em todas as apresentações feitas até agora, passando por Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Talvez eu seja suspeita pra falar, porque esse deve ser um dos meus discos favoritos de 2017 – pelo menos até agora. Letícia é uma mulher muito potente e não te deixa nem um pouquinho desconfortável. Seus devaneios são muito assertivos – por mais contraditória que essa frase pareça.

Conversei com ela por telefone e o resultado foi um papo sobre amor, terapia, alter-egos. Sempre passando pelos astros.


Como começou a sua relação com a música?
Antes de cantar no Letuce eu tive uma banda de rock na Tijuca bem pra começar a brincar com música. Eu não pensei que a minha vida ia acabar me levando pra isso. Desde criança eu sempre fui um pouco a artista da família. Me formei em teatro, sempre fui a prima que inventava os teatrinhos e música sempre teve um poder muito forte e muito misterioso na minha vida. Eu não pensava “vou ser cantora”, apesar de alguns indícios. A única Barbie que eu tive era a cantora. Eu só tinha Playmobille. Eu gostava de dublar as músicas, meus pais botavam Bethânia, e eu adorava ficar me olhando no espelho com uma escova, cantando, mas muita criança faz isso e eu fico tentando ver se tinha alguma relação.

E como é a experiência de se jogar e construir um trabalho próprio depois de ter vivenciado uma carreira mais estruturada?
Quando eu fiz o Letuce, o primeiro disco foi bem despretensioso e, de repente, virou uma coisa que, olha: está acontecendo. Tem gente pedindo show, tem gente querendo que a gente faça uma trilha, se apresente. Daí eu fui vendo um caminho muito curioso e que eu gosto muito. Adoro compor, sinto prazer compondo, sinto prazer fazendo show. Chegou uma hora que, não só por eu e o Lucas termos separado – muita gente pergunta se o Letuce acabou só por isso, mas não foi. Eu acho que é um processo natural de parcerias. Se você tá há tantos anos trabalhando num escritório, acho natural que chegue uma hora em que as pessoas queiram vivenciar outro ambiente, ter outra equipe. Super normal. Eu já tava com umas ideias de banda, formação e estilo que não condiziam tanto com o que o Letuce tava fazendo. Eu tava numa pegada de “preciso fazer canções”. Passei alguns meses nisso — anos até —, porque tem música do Em Noite de Climão que a letra foi feita em 2012, mas ficou guardada num diário. Eu retomei e foi um processo muito místico e também prazeroso. Ao mesmo tempo dolorido, porque é louco colocar seu diário, suas sensações pra jogo. Não é só prazer. Tem letras ali que vieram de um lugar profundo. É bom quando um disco transforma. Eu acho que esse disco me transformou muito e consequentemente sinto as pessoas muito transformadas também. Acho que foi genuína a minha transformação, acho que a transformação das pessoas também é uma consequência da minha — estamos todos juntos nos transformando. Mais ou menos por aí.


Foto por Marina Novelli

Dos processos mais importantes de se fazer arte, é jogar ela pro universo. Como cada pessoa entende e recebe disso cabe bastante a ela. Qual a beleza disso pra você?
Eu acho que quando você faz uma música, ela nem é mais sua. A música é do mundo. A pessoa sente o que ela quer sentir, a pessoa é atravessada. Digamos que eu fiz uma música pra minha infância, mas a pessoa cisma de remeter ao namorado dela. E aí, o que que eu vou fazer? Não posso fazer nada, eu vou aceitar que essa música esbarra nisso pra ela. É claro que quando um crítico faz críticas adivinhatórias me incomoda. Ele é um profissional e ele não pode ficar falando “Letícia quis dizer isso”. É outra coisa. Mas o público ser esbarrado, atravessado, querer interpretar das maneiras que eles quiserem, é muito mágico. Mostra que música é uma coisa infinita e muito livre. Talvez a coisa mais livre que a gente tem hoje em dia. Ainda bem, porque o mundo tá tão horroroso. Ainda bem que a arte ainda cumpre esse papel sensorial e imagético de nos causar algo para além de boletos. Senão o mundo ia ser muito muito triste e as pessoas às vezes não tem muita noção da importância. É muito triste ver a cultura de uma maneira tão subjugada, muito deixada de lado. A pessoa não tem noção do quão triste ela vai ficar se passar uma semana da sua vida sem ouvir uma música, sem assistir a um filme, sem esbarrar em nada que seja da cultura.

Se colocar no mundo é coragem. Pra mim, a noite de climão do disco é coragem – de ser mulher, de se permitir entregar, “dançar com a fossa” sem se fixar no depois. Isso é Letícia, Letrux ou um pouco das duas?
É um pouco das duas, totalmente. Ainda mais eu vindo do teatro. Adoro a criação de personas. Acho até importante pra minha proteção, mas não só isso porque eu gosto de brincar também. Eu, em casa, tenho uma vida super comum. Na Tijuca, vou ali no supermercado, compro comida, volto. Então é muito legal quando você vai pro palco brincar, usar maquiagem. No show eu tenho falado uns textos entre as músicas e faço uma voz diferente. Acho divertido brincar de ser outra pessoa. Mas é claro que tem milhões de coisas ali que são Letícia. E tudo bem mesclar, deixar tudo junto também.

A persona também pode funcionar como uma forma de conseguir se colocar como pessoa física sem tanto medo.
Às vezes a gente precisa de uma máscara. Você não é menos verdadeiro por estar com uma máscara te protegendo. É até adulto fazer isso. A criança que é pura e aparece e fala o que sente, mas isso só é lindo enquanto você é criança. Ser adulto e viver em sociedade é normal também. As pessoas dizem “ah, você tem que ser verdadeiro, você tem que ser sincero”. Alto lá. Você tem que ser verdadeiro com o que você quer. Mas se você quiser omitir algumas questões, omita. Não é um crime também. Claro que você mentir coisas do tipo “matei alguém” é um crime. Mas se você quiser mentir a idade, se eu quiser mentir onde eu moro, sei lá, as pessoas também condenam muito esse lugar. E eu não sei até que ponto a sinceridade completa e absoluta é a resposta dos nossos problemas.

Provavelmente não é.
Eu acho até muita loucura. Eu e uns amigos, a gente fala “ah, que sincericídio”, né? Não sei, você tá à beira de cometer um sincericídio, para com calma, respira, vai escrever, ler um livro. É que às vezes o sincericídio só magoa todo mundo, e é isso. Se vai magoar geral, calma, respira. Vai fazer um pão com ovo, vai escrever. Eu às vezes escrevo e-mails gigantes e não mando. É só desabafar. Alguns já mandei e deu merda. Sempre dá. Mas às vezes você aprende e não vai mandar. É só um desabafo, né? Mas não precisa exatamente contar pra alguém. Tô nessa fase, eu acho. Já fui muito de falar tudo o que eu tô sentindo, mas agora eu tô mais quieta.

Uma das minhas frases favoritas do disco inteiro é: “remédio, terapia e naufragar”. Fala um pouquinho disso.
Eu conheci muita gente na vida, amigos ou não amigos, que precisam de remédio — pra não naufragar até. Eu tinha esse preconceito com remédio e pensei “gente, quem sou eu pra julgar como cada um aguenta a sua cruz, o fardo de estar vivo?”. Não é um fardo, é uma loucura estar vivo. Então comecei a ter uma outra visão de remédio. Eu já fiz análise várias vezes, vários processos diferentes. Eu faço as minhas curas místicas, mas se eu tiver que pegar um avião eu preciso tomar Rivotril. E isso também não pode ser um “Ah, mas você é menos espiritualizada porque você faz Reiki mas toma Rivotril quando voa.” Não! Eu continuo acreditando, mas eu não quero sentir minha barriga em chamas. Eu acho que o “remédio, terapia e naufragar” é isso. Terapia é importante, falar é importante, remédio é importante e, às vezes, naufragar também é importante pra você ressurgir. Às vezes, morrer, naufragar e afundar é muito importante. Você vai lá no fundo, se sente em alguma coisa e ressurge, renasce. É importante naufragar.

Acredito que a parte mais difícil talvez seja voltar pra superfície. Por que é importante naufragar pra você?
Eu acho que do chão a gente não passa, então já que estou aqui na merda, nas águas abissais do oceano, o que eu posso tirar disso? Eu sou muito Capricórnio nesse sentido. Como posso tirar proveito de qualquer situação? De qualquer perrengue na minha vida, qualquer estresse. Eu tenho uma visão quase Pollyanna. O que posso aprender dessa circunstância, sabe? Então por mais que às vezes você opte por naufragar, às vezes você naufraga sem querer. Então aproveita: tira o melhor dessa situação.

O amor de alguma forma tangencia o disco como um todo. Não necessariamente o amor caretão. A primeira vez que eu ouvi, eu achei que “Existe amor depois do amor” em “Amoruim” fosse uma pergunta. É pergunta, é afirmação?
Eu tô afirmando. Acho que existe amor depois do amor com certeza. É louco as pessoas acharem que em uma existência você só vai amar uma vez, né? Você pode amar várias vezes, várias pessoas, de diversas formas. Essa comparação sobre amor de “eu amei mais, mas eu amei melhor, amei mais tempo”, isso tudo é uma grande besteira. Tem pessoas que têm encontros de dois meses que são mais intensos do que, sei lá, um casamento que dura dez anos. Então acho que é tudo uma grande loucura. A famosa expressão ‘dar certo’ dá um medo… O que é dar certo? Dar certo é ter filho? Pra alguns, sim. Pra outros é outra coisa, outra explicação que nem cabe dar a quem perguntou — só pra quem sentiu. Mas acho que eu tô totalmente afirmando. Pelo menos é o que eu sinto. E que bom, e que alívio, e que salvação também.

O que você acha que resta quando um amor acaba?
Acho que resta memória. Lembranças. Sensações. Você não apaga, não é ‘Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças’. E que bom, claro que não é muito legal ficar muito nostálgica, mas é importante também ter memórias, lembranças. Acho que o que resta é isso.


Foto por Marina Novelli

Pra fechar, como que vocês tem se sentido com esse trabalho novo? Todos os shows que você fez até agora foram casa cheia.
A resposta tem sido muito surpreendente. É claro que quando a gente gravou o disco, a gente tava muito amarradão, empolgado. Mas é um tiro no escuro. Tem sido muito além do que eu esperava. Brasil todo: e-mails, cartas, mensagens, pessoas pedindo. Tem sido muito especial. Minha autoestima enquanto cantora e musicista levantou um pouco. Olha, eu tenho ascendente em Virgem, então a pessoa me elogia e eu digo logo o preço da roupa, sabe? Mas acho que esse disco me deu um crédito que tem seu valor, sua curiosidade. As pessoas se interessam, gostam, então me senti mais confiante enquanto compositora.