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Gabriela Garrido convida a descobrir seus mundos no EP “Entre”

Todas as fotos por Luisa Queiroz

Em um trabalho muito mais encorpado e menos apressado, Gabriela Garrido aponta as delícias e confusões de uma menina de vinte e poucos anos tentando entender o que é a vida. Entre demonstra um cuidado do início até o fim – a palavra pode ser preposição, sobre estar no meio de duas ou mais coisas, ou flexão do verbo entrar, como um convite. Cada uma das cinco faixas te convida para conhecer um pouco das questões e dos universos de Gabriela, a do palco e a de fora dele. O disco vai ser lançado no dia 5 de maio, no Rio de Janeiro, e mostra novas nuances da artista depois de Mergulho, seu primeiro trabalho.

Ouvir Entre é como uma brisa de ar fresco no fim de tarde, pensando em saudade e no que está por vir. E foi nesse clima que eu conversei com a Gabriela – bebendo uma cerveja no centro do Rio, debaixo de uma luz linda que tá nas fotos da Luisa Queiroz aqui embaixo.


Entre pode ser preposição e flexão do verbo entrar e isso está presente até nos detalhes da capa do disco. Eu queria que você falasse sobre essa intenção.

Depois de organizar todas as músicas que eu queria lançar, eu percebi esse padrão de que eram muitas músicas sobre um vai e vem de medo e coragem, fragilidade e força. É uma coisa meio. No total, é uma parada minha. Todas as músicas começaram a surgir depois que eu comecei a fazer terapia também. E a gente sempre segue em busca desse controle, né? De como administrar as nossas emoções de alguma forma e ter… Terapia é pra isso, pra gente tentar dar um norte pra coisa. Conseguir sempre entender o que tá se passando com a gente. Foi por isso que eu escolhi esse nome. Primeiro foi a questão do meio, de tentar estar e equilibrar minhas emoções de alguma forma, abraçar os dois lados. Eu acho que faz parte ficar triste, viver a tristeza e viver a felicidade. A gente não tem que negar nenhuma das duas. E eu achei que essa palavra, exatamente por ter esse duplo sentido, seria legal por ser uma coisa muito íntima mesmo. Pode entrar, eu sou isso mesmo.

Eu queria entender um pouquinho mais sobre as divisões da Gabriela e da Gabriela Garrido artista. Como que elas tão juntas?

Sinceramente, eu não vejo uma separação porque essas músicas são muito pessoais, elas são 100% eu. Eu artista não consigo me separar do resto, apesar de ainda não viver disso, de ter que buscar outras coisas. De viver fora desse mundo ao mesmo tempo que eu to muito nele. Todas as minhas aflições fora do mundo da música acabam se tornando música . É meio isso. Pela Metade é sobre uma insegurança, sobre aceitação, buscar ser independente. Essa idade, esse momento. E de uma negação ainda muito grande. Eu acho muito difícil fazer essa separação porque o meu lado artista é exatamente onde eu consigo extravasar todas as minhas frustrações e medos.

Sobre a transição de Mergulho para Entre, como o trabalho mudou? Como você sente que cresceu?

O meu primeiro ep eu juntei quatro músicas que eu ja tinha há um tempo. Foi meio extravasado. Eu preciso fazer isso agora, preciso correr. Eu juntei uma galera que tocava e não foi pensado com tanto carinho porque foi feito na emoção. Quero botar isso pra fora porque eu tenho muito mais coisa pra fazer, quero seguir, quero começar. Então eu sinto que o entre foi um processo mais cuidadoso, tive muito mais atenção, por exemplo, pra lançar De Bicicleta antes. Tanto no quesito planejamento, quanto no quesito arranjo, que sonoridades têm a ver comigo. Eu considero Mergulho um EP bem mais Rock n Roll, foi mais agressivo. Minhas referências foram as da adolescência.

Entre já foi mais “olha, eu estou mudando, estou conhecendo novas coisas, botei uma percussãozinha”. Foi esse processo de tomar mais tempo para planejar ele, pra pensar na arte como algo que fizesse sentido – cada música tem uma arte diferente – montar uma equipe pra criar um trabalho maneiro, enquanto Mergulho foi eu fazendo uma coisa pra logo ir atrás de outra, meio sem rumo. Mas amo os dois igualmente, são processos diferentes. Eu preciso fazer pra ver como é. Eu aprendi muito errando no primeiro ep e ainda vou errar pra caralho nesse, mas cada vez mais vai pegando a direção que eu quero.

Qual sua faixa favorita do disco?

Eu acho que Invenção, a última. Eu ainda me sinto muito próxima do que aconteceu, que é sobre sair de um bloqueio criativo e emocional e tentar ver uma luz no fim do túnel. Tentar se enxergar como as pessoas que te amam te enxergam. É sobre acreditar em você e, pra mim, isso diz muito sobre esse trabalho, sobre meu processo como artista. Então, no momento, essa música é a mais certeira nos meus sentimentos talvez.

Pra fechar, queria saber o que te inspirou pra construir o EP.

É difícil. Eu tenho referências da vida, que eu costumo dizer, que é por causa delas que eu comecei a cantar e são muitas bandas que eu ouvi na adolescência tipo Paramore, Yeah Yeah Yeahs, Tegan and Sara, bandas de vocal feminino. Eu realmente comecei a cantar por causa dessa galera. Mas esse disco eu posso pensar em algumas coisas. Cássia Eller sempre me acompanha, eu ouvi muito as coisas dela antes de fazer, até pra colocar a percussão, Johnny Hooker, principalmente em Pela Metade – por querer fazer uma coisa mais visceral. Cada faixa tem uma pegada. Já em Invenção, eu me inspirei um pouco em Mac Demarco. São coisas bem aleatórias mesmo. Escutei muito Frank Ocean quanto tava gravando – tem umas músicas que me pegam muito e a interpretação dele é bem bizarra.