Destaques, Isso não é uma review
comentários 2

As mulheres na Vekanandra de Luísa e os Alquimistas

Foto por Luana Tayze

Lançado em parceria entre os selos PWR Records e Rizomarte, Vekanandra é o segundo registro gravado em estúdio pela potiguar Luísa e os Alquimistas. O sucessor de Cobra Coral conta com a produção de Walter Nazário (Mahmed) e marca grande amadurecimento do projeto liderado por Luísa Guedes, acompanhada dos músicos Zé Caxangá, Gabriel Souto e Pedras.

O álbum funciona como um todo ao longo de suas sete faixas apresentando o início, meio e fim da história dessa personagem que dá nome ao disco. O título curioso vem do clássico meme Lohany Vekanandre Sthephany Smith Bueno de HAHAHA de Raio Laser Bala de Icekiss e também trata de uma espécie de alter-ego da artista. Ela conta que sempre brincava com o vídeo e recebeu de alguns amigos o apelido Veka.

Flertando com a palavra falada e tendo forte influência de ritmos como tecnobrega, ragga, hip hop e otras cositas más, o trabalho é resultado de uma pesquisa que vai muito além da música. A história de Vekanandra atravessa a vivência de mulheres que performam e tiveram sua humanidade ignorada. Para além da figura à frente do palco, o disco trata de vida, passagem de tempo, velhice e morte: “Vekanandra é essa entidade, a diva que de alguma forma me atravessa por essas histórias todas, por minha afrodescendência e por ser mulher. Ela é feita das histórias de mulheres e é isso que a gente tem em comum. Nesse disco ela nasce e morre.”

Luísa define uma linha de referências com mulheres – famosas ou não – ao longo de momentos históricos pensando o passado como abertura para que novas artistas pudessem botar a cara no palco. A ascensão e queda das vedetes mexicanas na década de 60, marcada pelo documentário “Vedetes en el olvido” (Vedetes no esquecimento); a trajetória de Amy Winehouse; a imagem que Dercy Gonçalves representou para o teatro e a televisão brasileira e até Canti, a avó de 106 anos de uma amiga pessoal, foram algumas das figuras que definiram Vekanandra. Batemos um papo para entender melhor quem é essa personagem que o grupo apresenta.



Quais foram as principais referências (não necessariamente musicais) pra construção dessa identidade e do álbum?

Essa brincadeira com o nome tá comigo desde antes de começar a cantar. Cantar e compor é recente dentro da minha trajetória como artista. Quando eu tava compondo e pensando do que se trataria esse disco, eu comecei a fazer uma pesquisa e ficar bem fascinada e interessada pelo universo das mulheres artistas da música, da cena, da dança e tudo mais.
Uma das coisas que me marcaram foi um documentário chamado “Vedetes en el olvido” (Vedetes no esquecimento) e conta algumas histórias bem cabulosas sobre as vedetes no México. A mudança de uma ação mais artística e glamurosa se tornando mais sensual e sexual para se manter no mercado.
Eu tava vivendo um período de aceitação do meu lugar como cantora, de estar sendo exposta. Se a gente como mulher tem muitas nóias com relação à aparência e o que as pessoas vão achar, imagina quando você tá sendo sempre exposta. Todos esses questionamentos sobre a indústria musical e o quanto se suga dessas figuras. Junto das vedetes, veio também a história da Amy Winehouse. A maneira como ela morreu, o quanto ela foi sugada pela fama. São histórias fortes e tristes que sempre me encucaram.

A Vekanandra é essa figura que tem que estar sempre bem plena e diva quando tá com o público, mas isso nem sempre acontece quando ela tá em casa. Fala muito dessa dualidade. Quando eu tava no processo de pesquisa, eu ainda não tinha um nome. Eu sabia que precisava ser um nome próprio, o nome de uma pessoa. Foi aí que eu comecei a pensar em nomes que marcaram pra mim. O nome foi ganhando espaço dentro do processo. Ela é esse meu lugar de exposição, de estar na música e de estar sendo tocada por todas essas histórias dessas mulheres. É quase uma entidade.

Afinal, quem é Vekanandra?
Quando você me pergunta quem é Vekanandra e quais são as referências pra esse álbum, ela é todos esses recortes, todas essas colagens dessas musas, divas e entidades que marcaram a história. Isso foi algo que a gente deixou de cara no trabalho com os recortes de samples que a gente faz na Leona Vingativa, a própria Lohany Vekanandre, Inês Brasil, passando pela Dercy Gonçalves na última música (Barca de Oro). Nela também tem o áudio da Canti, que é a avó de uma amiga minha, Paula. Ela me mandava muitos áudios da avó, que tem 101 anos e se tornou uma inspiração.
Foi bem massa quando caiu a ficha de que eu deveria tratar da velhice nesse processo também. Tratar de mulheres como a Dercy e eu me atentei pra isso quando andava trocando esses áudios com minha amiga. A gente escolheu alguns trechos e usou o sample em Barca de Oro. A música fala sobre partida e é uma forma bonita de falar da morte. Trata sobre velhice, morte e esses fantasmas. A parte mais fantasmagórica dessas divas que vão permanecendo e indo embora devagar. Só o que tá presente na voz e o que elas falam já é muito forte.

O disco fala em alguns momentos sobre a indústria, o disco foi viabilizado com ajuda de um financiamento coletivo. Ser independente e acessível é um lance importante pra Luísa e os Alquimistas?
Nunca tinha parado pra pensar nisso de uma forma tão clara. As coisas acontecem e a gente vai fazendo as melhores escolhas de acordo com o que a gente tá fazendo com a música. Eu comecei cantando soul, blues, depois fui pro reggae, pop, depois fui pro brega, tecnobrega. Tô flertando muito com a palavra rimada, com o ragga, o rap. A partir do momento em que você surge mostrando essas facetas, as pessoas, às vezes, esperam que você siga uma certa linha. Não só as pessoas, como a indústria que eu falo na música.
Eu não sei muito bem hoje em dia o que significa ser independente. A gente não vive mais essa realidade das gravadoras, mas de alguma forma tá sempre almejando conseguir algum tipo de apoiador que tenha afinidade com a música e tope desenvolver o trabalho. Às vezes você tá preso a uma estrutura maior onde você tem que prestar conta do som que tá fazendo, pra onde você ta indo na música. Uma pessoa que brinca com tantas linguagens diferentes dentro da música ficaria um pouco limitada, então acredito que a nossa ideia é de seguir experimentando e estando livre pra fazer isso.

Ainda sobre isso, o que é ser artista pra você?
Tem sido a maneira que eu encontrei de me colocar no mundo, me expressar e curar certas mazelas. Mais que nada, fazer arte é quase uma atividade terapêutica pra mim e eu levo isso muito a sério. Até demais às vezes. Sou muito exigente comigo e com quem trabalha comigo. Ao mesmo tempo, eu tento ser generosa e saber que por mais que eu esteja bem assessorada, todo esse trampo com a banda é muito meu corre. A banda existe porque eu juntei essas pessoas pra fazer esse som que eu sempre direciono e eles somam com a sensibilidade musical incrível deles. Então estando ciente de que isso é um corre meu, das minhas músicas, eu tento ser generosa também de saber valorizar muito a importância dessas pessoas que tão por perto.
Eu comecei a dar essa atenção maior pro meu lado musical depois dos 25 anos. Foi uma grande descoberta de mim e justamente quando a gente passa a entender isso como um trabalho, uma maneira de fazer seu corre, de sobreviver, de tentar estudar mais, ser melhor, fazer parcerias com pessoas que você admira… Eu ando muito rodeada por essas vontades e com esse foco. Eu tenho muita gratidão por estar conseguindo fazer as coisas e dando minhas aulas de tecido, fazendo minha grana. Mesmo com todas as dificuldades eu sou grata a tudo que esse trabalho com a arte me trouxe. Essa é minha maneira de estar no mundo.

O Cobra Coral guarda muitas referências musicais vindas de diversos cantos. Algumas tão bastante presentes em Vekanandra, mas de uma maneira um tanto quanto diferente – talvez mais amarrada. Você sente que foi uma transição natural? Como você vê as mudanças do primeiro pro segundo disco?
O primeiro disco veio como necessidade de compor e aprender a fazer, fazendo. É minha primeira experiência com gravação e composição. Fomos juntando as músicas e surgiu assim. Fiz algumas e chamei o Gabriel pra gravar um EP. Conforme gravamos pro ep, surgiram outras e quando vimos, já tínhamos 9 faixas. Todas conversam entre si, mas como recorte de um período da minha vida. Elas tão unidas por isso – por um momento em que fizeram parte, na descoberta de um universo com o frescor de um primeiro trabalho. Para o segundo, eu já quis fazer algumas coisas de maneira diferente, já pensando no que fica melhor pro próximo. Tô bem empolgada com o que pode vir em sequência. Tentar amarrar e fazer um disco onde as faixas conversem entre si e tenham uma ordem proposital, construir uma narrativa me pareceu muito interessante e desafiador. Eu fiquei bem feliz com a evolução – não que um trabalho seja melhor do que o outro, mas sinto que estou passando nas fases desse vídeo game.

Como você sente esse momento da cena em Natal? Vocês dividem espaço com uma galera super talentosa.
Esse é um momento especial da música aqui. Acho que a gente estar localizado geograficamente aqui e às vezes não ser rota de eventos de grande porte que fazem itinerância pelo Nordeste fez com que se criasse uma maneira especial de fazer música. Temos figuras muito interessantes vindas de diversas maneiras de fazer música. O bacana é ver mais gente daqui conseguindo circular pelo Brasil, como o Far From Alaska, Plutão Já Foi Planeta, que tocaram em grandes festivais, aparecendo na mídia. O Mahmed, o Anderson Foca com o DoSol, circulando o país inteiro e fora dele com suas bandas, mediando mesas importantes. Ana Morena, também do DoSol, uma forte fazedora da música aqui. Citar o DoSol como um festival importante é bem pertinente. É uma vitrine foda. É um festival que resiste aqui e a gente admira bastante e preza pra que ele continue existindo. A gente tá num momento, inclusive, de se inspirar, aprender o que fazer e como fazer. É massa saber que a coisa tá se proliferando. Estão surgindo outros selos, outras articulações, a fim de tornar a coisa muito mais plural.
Natal hoje em dia tá vivendo um movimento forte nas artes: teatro, cinema, fotografia, artes visuais, dança. A gente tem todo esse material humano de artistas incríveis, mas vive numa cidade com muito desleixo do poder público. Falta qualquer tipo de política pública que incentive a produção de material cultural que ajude as pessoas a circularem. As condições não são favoráveis e talvez isso nos traga uma garra ainda maior. Mesmo assim, a gente tá com essa galera toda fazendo o som que tá fazendo e eu me sinto muito orgulhosa por poder fazer parte desse recorte cultural da cidade.

Curiosidade: letras em outras línguas – espanhol, inglês, francês – tão bastante presentes nos dois trabalhos. Queria saber de onde vem isso.
Surgiu naturalmente como ferramenta de composição. Sempre me deu mais possibilidades de rimar, de juntar a métrica e o que tá querendo ser dito. Eu falo essas línguas superficialmente, principalmente o inglês – cometo muitos erros gramaticais que tão presentes e gravados aí pra todo mundo sacar. Brincar com as línguas parte do lugar de alguém do “terceiro mundo” que quer ser entendida, digamos assim. Não por fazer coisas para os gringos ouvirem, mas de conseguir ser entendida de várias formas, falar de lugares diferentes. Cada idioma que eu canto traz um som diferente com várias facetas. Uma grande referência de quem faz isso é o Manu Chao e eu acabo mesclando as línguas que ele também mescla. Faço essa mistura com o francês, espanhol, português e inglês, que por coincidência são os idiomas que eu tenho um pouco de contato.

Agora mudando um pouco o foco, fala um pouco das suas influências musicais. Como elas fazem parte do seu processo artístico?
Não que eu não escute homens, mas a quantidade de mulheres que eu escuto acaba sendo bem maior. Eu sempre fui muito eclética e acho que isso fica bem visível no trabalho. Gosto de muitas coisas diferentes. Também fico muito atenta às músicas que tão sendo ouvidas e feitas nas periferias – funk, tecnobrega, bregafunk, transareggae, swingueira – sempre gostei de detectar as misturas que as pessoas tão fazendo com muita criatividade e poucos recursos. O popular sempre me fascinou bastante. Nesse caso, acabo escutando caras e gosto de ouvir o que eles tão falando – até de maneira bastante sexista -, pesquisar essas linguagens, essas sonoridades que são envolventes e fazê-las no meu lugar de mulher. Pra construir o disco, ouvi muito trap, hip hop, dub digital, trip hop, mesclando com essa linguagem mais popular pra construir as métricas.