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‘Letrux Em Noite de Climão’ e as múltiplas faces de Letícia Novaes

Foto por Marina Novelli

Letrux Em Noite de Climão é o primeiro disco de Letícia Novaes pós-término do projeto Letuce, que ficou em atividade de 2007 a 2016, reuniu uma legião de fãs e foi marcado por uma despedida calorosa no fim do ano passado em Paquetá, no Rio de Janeiro.

O novo trabalho é resultado de uma campanha de financiamento coletivo e mostra outra face da cantora/compositora/atriz/escritora. Um retrato mais noturno, que se entrega pra vida e suas múltiplas possibilidades como numa pista de dança (literalmente). Referências dos anos 80 ao longo das onze faixas, o disco ainda conta com uma participação de Marina Lima em “Puro Disfarce”.

O Climão vem sendo muito bem recebido pelo público e contou com casa cheia em todas as apresentações feitas até agora, passando por Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Talvez eu seja suspeita pra falar, porque esse deve ser um dos meus discos favoritos de 2017 – pelo menos até agora. Letícia é uma mulher muito potente e não te deixa nem um pouquinho desconfortável. Seus devaneios são muito assertivos – por mais contraditória que essa frase pareça.

Conversei com ela por telefone e o resultado foi um papo sobre amor, terapia, alter-egos. Sempre passando pelos astros.


Como começou a sua relação com a música?
Antes de cantar no Letuce eu tive uma banda de rock na Tijuca bem pra começar a brincar com música. Eu não pensei que a minha vida ia acabar me levando pra isso. Desde criança eu sempre fui um pouco a artista da família. Me formei em teatro, sempre fui a prima que inventava os teatrinhos e música sempre teve um poder muito forte e muito misterioso na minha vida. Eu não pensava “vou ser cantora”, apesar de alguns indícios. A única Barbie que eu tive era a cantora. Eu só tinha Playmobille. Eu gostava de dublar as músicas, meus pais botavam Bethânia, e eu adorava ficar me olhando no espelho com uma escova, cantando, mas muita criança faz isso e eu fico tentando ver se tinha alguma relação.

E como é a experiência de se jogar e construir um trabalho próprio depois de ter vivenciado uma carreira mais estruturada?
Quando eu fiz o Letuce, o primeiro disco foi bem despretensioso e, de repente, virou uma coisa que, olha: está acontecendo. Tem gente pedindo show, tem gente querendo que a gente faça uma trilha, se apresente. Daí eu fui vendo um caminho muito curioso e que eu gosto muito. Adoro compor, sinto prazer compondo, sinto prazer fazendo show. Chegou uma hora que, não só por eu e o Lucas termos separado – muita gente pergunta se o Letuce acabou só por isso, mas não foi. Eu acho que é um processo natural de parcerias. Se você tá há tantos anos trabalhando num escritório, acho natural que chegue uma hora em que as pessoas queiram vivenciar outro ambiente, ter outra equipe. Super normal. Eu já tava com umas ideias de banda, formação e estilo que não condiziam tanto com o que o Letuce tava fazendo. Eu tava numa pegada de “preciso fazer canções”. Passei alguns meses nisso — anos até —, porque tem música do Em Noite de Climão que a letra foi feita em 2012, mas ficou guardada num diário. Eu retomei e foi um processo muito místico e também prazeroso. Ao mesmo tempo dolorido, porque é louco colocar seu diário, suas sensações pra jogo. Não é só prazer. Tem letras ali que vieram de um lugar profundo. É bom quando um disco transforma. Eu acho que esse disco me transformou muito e consequentemente sinto as pessoas muito transformadas também. Acho que foi genuína a minha transformação, acho que a transformação das pessoas também é uma consequência da minha — estamos todos juntos nos transformando. Mais ou menos por aí.


Foto por Marina Novelli

Dos processos mais importantes de se fazer arte, é jogar ela pro universo. Como cada pessoa entende e recebe disso cabe bastante a ela. Qual a beleza disso pra você?
Eu acho que quando você faz uma música, ela nem é mais sua. A música é do mundo. A pessoa sente o que ela quer sentir, a pessoa é atravessada. Digamos que eu fiz uma música pra minha infância, mas a pessoa cisma de remeter ao namorado dela. E aí, o que que eu vou fazer? Não posso fazer nada, eu vou aceitar que essa música esbarra nisso pra ela. É claro que quando um crítico faz críticas adivinhatórias me incomoda. Ele é um profissional e ele não pode ficar falando “Letícia quis dizer isso”. É outra coisa. Mas o público ser esbarrado, atravessado, querer interpretar das maneiras que eles quiserem, é muito mágico. Mostra que música é uma coisa infinita e muito livre. Talvez a coisa mais livre que a gente tem hoje em dia. Ainda bem, porque o mundo tá tão horroroso. Ainda bem que a arte ainda cumpre esse papel sensorial e imagético de nos causar algo para além de boletos. Senão o mundo ia ser muito muito triste e as pessoas às vezes não tem muita noção da importância. É muito triste ver a cultura de uma maneira tão subjugada, muito deixada de lado. A pessoa não tem noção do quão triste ela vai ficar se passar uma semana da sua vida sem ouvir uma música, sem assistir a um filme, sem esbarrar em nada que seja da cultura.

Se colocar no mundo é coragem. Pra mim, a noite de climão do disco é coragem – de ser mulher, de se permitir entregar, “dançar com a fossa” sem se fixar no depois. Isso é Letícia, Letrux ou um pouco das duas?
É um pouco das duas, totalmente. Ainda mais eu vindo do teatro. Adoro a criação de personas. Acho até importante pra minha proteção, mas não só isso porque eu gosto de brincar também. Eu, em casa, tenho uma vida super comum. Na Tijuca, vou ali no supermercado, compro comida, volto. Então é muito legal quando você vai pro palco brincar, usar maquiagem. No show eu tenho falado uns textos entre as músicas e faço uma voz diferente. Acho divertido brincar de ser outra pessoa. Mas é claro que tem milhões de coisas ali que são Letícia. E tudo bem mesclar, deixar tudo junto também.

A persona também pode funcionar como uma forma de conseguir se colocar como pessoa física sem tanto medo.
Às vezes a gente precisa de uma máscara. Você não é menos verdadeiro por estar com uma máscara te protegendo. É até adulto fazer isso. A criança que é pura e aparece e fala o que sente, mas isso só é lindo enquanto você é criança. Ser adulto e viver em sociedade é normal também. As pessoas dizem “ah, você tem que ser verdadeiro, você tem que ser sincero”. Alto lá. Você tem que ser verdadeiro com o que você quer. Mas se você quiser omitir algumas questões, omita. Não é um crime também. Claro que você mentir coisas do tipo “matei alguém” é um crime. Mas se você quiser mentir a idade, se eu quiser mentir onde eu moro, sei lá, as pessoas também condenam muito esse lugar. E eu não sei até que ponto a sinceridade completa e absoluta é a resposta dos nossos problemas.

Provavelmente não é.
Eu acho até muita loucura. Eu e uns amigos, a gente fala “ah, que sincericídio”, né? Não sei, você tá à beira de cometer um sincericídio, para com calma, respira, vai escrever, ler um livro. É que às vezes o sincericídio só magoa todo mundo, e é isso. Se vai magoar geral, calma, respira. Vai fazer um pão com ovo, vai escrever. Eu às vezes escrevo e-mails gigantes e não mando. É só desabafar. Alguns já mandei e deu merda. Sempre dá. Mas às vezes você aprende e não vai mandar. É só um desabafo, né? Mas não precisa exatamente contar pra alguém. Tô nessa fase, eu acho. Já fui muito de falar tudo o que eu tô sentindo, mas agora eu tô mais quieta.

Uma das minhas frases favoritas do disco inteiro é: “remédio, terapia e naufragar”. Fala um pouquinho disso.
Eu conheci muita gente na vida, amigos ou não amigos, que precisam de remédio — pra não naufragar até. Eu tinha esse preconceito com remédio e pensei “gente, quem sou eu pra julgar como cada um aguenta a sua cruz, o fardo de estar vivo?”. Não é um fardo, é uma loucura estar vivo. Então comecei a ter uma outra visão de remédio. Eu já fiz análise várias vezes, vários processos diferentes. Eu faço as minhas curas místicas, mas se eu tiver que pegar um avião eu preciso tomar Rivotril. E isso também não pode ser um “Ah, mas você é menos espiritualizada porque você faz Reiki mas toma Rivotril quando voa.” Não! Eu continuo acreditando, mas eu não quero sentir minha barriga em chamas. Eu acho que o “remédio, terapia e naufragar” é isso. Terapia é importante, falar é importante, remédio é importante e, às vezes, naufragar também é importante pra você ressurgir. Às vezes, morrer, naufragar e afundar é muito importante. Você vai lá no fundo, se sente em alguma coisa e ressurge, renasce. É importante naufragar.

Acredito que a parte mais difícil talvez seja voltar pra superfície. Por que é importante naufragar pra você?
Eu acho que do chão a gente não passa, então já que estou aqui na merda, nas águas abissais do oceano, o que eu posso tirar disso? Eu sou muito Capricórnio nesse sentido. Como posso tirar proveito de qualquer situação? De qualquer perrengue na minha vida, qualquer estresse. Eu tenho uma visão quase Pollyanna. O que posso aprender dessa circunstância, sabe? Então por mais que às vezes você opte por naufragar, às vezes você naufraga sem querer. Então aproveita: tira o melhor dessa situação.

O amor de alguma forma tangencia o disco como um todo. Não necessariamente o amor caretão. A primeira vez que eu ouvi, eu achei que “Existe amor depois do amor” em “Amoruim” fosse uma pergunta. É pergunta, é afirmação?
Eu tô afirmando. Acho que existe amor depois do amor com certeza. É louco as pessoas acharem que em uma existência você só vai amar uma vez, né? Você pode amar várias vezes, várias pessoas, de diversas formas. Essa comparação sobre amor de “eu amei mais, mas eu amei melhor, amei mais tempo”, isso tudo é uma grande besteira. Tem pessoas que têm encontros de dois meses que são mais intensos do que, sei lá, um casamento que dura dez anos. Então acho que é tudo uma grande loucura. A famosa expressão ‘dar certo’ dá um medo… O que é dar certo? Dar certo é ter filho? Pra alguns, sim. Pra outros é outra coisa, outra explicação que nem cabe dar a quem perguntou — só pra quem sentiu. Mas acho que eu tô totalmente afirmando. Pelo menos é o que eu sinto. E que bom, e que alívio, e que salvação também.

O que você acha que resta quando um amor acaba?
Acho que resta memória. Lembranças. Sensações. Você não apaga, não é ‘Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças’. E que bom, claro que não é muito legal ficar muito nostálgica, mas é importante também ter memórias, lembranças. Acho que o que resta é isso.


Foto por Marina Novelli

Pra fechar, como que vocês tem se sentido com esse trabalho novo? Todos os shows que você fez até agora foram casa cheia.
A resposta tem sido muito surpreendente. É claro que quando a gente gravou o disco, a gente tava muito amarradão, empolgado. Mas é um tiro no escuro. Tem sido muito além do que eu esperava. Brasil todo: e-mails, cartas, mensagens, pessoas pedindo. Tem sido muito especial. Minha autoestima enquanto cantora e musicista levantou um pouco. Olha, eu tenho ascendente em Virgem, então a pessoa me elogia e eu digo logo o preço da roupa, sabe? Mas acho que esse disco me deu um crédito que tem seu valor, sua curiosidade. As pessoas se interessam, gostam, então me senti mais confiante enquanto compositora.