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Jundiaí afora, ‘Regina’ mostra que niLL não é outro rapper genérico

Um ano após a atmosfera nostálgica que envolve o Negraxa, niLL, o mestre de cerimônias radicado em Jundiaí lançou seu primeiro álbum solo intitulado Regina via o selo Sound Food Gang. O álbum é uma ode a própria existência: nomeado em homenagem póstuma a sua mãe, a capa desenhada pela sobrinha, as faixas estruturadas em cima de recortes de áudios do whatsapp. Multifuncional, niLL também atuou na produção do álbum e as noites em claro no programa FL Studio sustentam a atmosfera intimista.

A sonoridade é plural, flerta com jazz fusion, vaporwave e trap, atraindo ouvintes de nichos além da cena que o apadroa. As letras contemplam com uma riqueza agridoce temas como perda, ambição e desilusão. Muito embora a quantidade de recortes beire a um risco, a execução com brilhantismo inegável costura a gama de influências de um indivíduo com bagagem cultural.

Regina possui uma integridade artística que supera os trabalhos anteriores, muito além do diamante bruto do Sem Modos e da veia hedonista que limita os artistas a cor da erva que fumam.

O álbum é uma homenagem póstuma a sua mãe. Qual a maior influência dela na sua formação como artista?

Na real, a influência inicial é pessoal mesmo. Os meus pais me deram uma família quando eu não tinha, desde então eles acreditaram em mim e também deram liberdade. Não passei por pressão familiar de como eu tinha que viver a minha vida, isso afetou meu desenvolvimento criativo. Já influência musical não teve, eu sou o primeiro da família ligado a música.

E as suas influências pessoais? O que você gosta de ouvir e como isso refletiu na busca pela própria sonoridade?

Eu acabei me interessando mais por sons gringos, o Tyler the Creator mesmo abriu meus ouvidos para instrumentais diferenciados. Ele é o meu preferido do Odd Future, mas também gosto do Earl Sweatshirt e o Frank Ocean.

Falando em instrumental, a produção do seu álbum foi feita de forma independente e grande parte por você mesmo. Você escolheu o indie ou ele te escolheu?

Um pouco dos dois, um beat ou outro foi escolhido a dedo e outros simplesmente apareceram. Eu começava a fazer uma parada e pensava “Nossa, daora isso. Vou guardar!”, noutro dia acontecia o mesmo e uma hora eu tinha material o suficiente para eliminar o que não casava. Por exemplo, eu fui participar de um evento de beatmakers aqui em Jundiaí, lá conheci o Sono e o Estranho também; pirei em um beat do Estranho, trocamos uma ideia e acabou virando o instrumental da última faixa do álbum.

Comparado aos demais lançamentos do ano e principalmente do nicho, o álbum soa peculiar. O que levou você a manter o diferencial mesmo que pudesse atrapalhar seu rendimento comercial?

Não me ligo rótulos, se eu for vender vou vender mantendo a autenticidade e produzindo o que me agrada. Se eu for render meu trampo a um padrão, vou viver infeliz e eu não faço música para isso.

Você se vê como um artista alternativo?

Sim, acho importante o artista ser multifacetado e ir além da função de intérprete.

Qual a maior diferença entre o niLL do Negraxa e o niLL do Regina?

Acho que não teve diferença nenhuma, existe uma ponte entre as temáticas e a maturidade musical continua a mesma. Eu já estava moldando o Regina quando fiz o Negraxa, a única diferença é a dimensão de trabalho.

Se você fosse escolher uma faixa-assinatura para quem ainda não conhece seu som. Qual seria?

“Bolhas” do Negraxa, a musicalidade dela é bem rica, há muita harmonia em contraponto ao tom satírico nas rimas que é a minha marca, acaba sendo a faixa que mais me representa como artista.

Aproveitando a deixa da representatividade, qual sua relação com o público feminino? Você se preocupa com a inclusão das mulheres na cena?

A minha relação com o público feminino é meio complicada, eu não tenho noção de quantas meninas ouvem meu som porque eu tenho mais feedback dos homens. Tenho estudado assuntos que contemplam as mulheres para que elas se identifiquem mais com o que eu produzo, pretendo agregar isso no meu próximo trampo. A visão das mulheres é muito importante porque quando elas gostam é genuíno e elas compartilham com as pessoas, não tem aquele ego masculino acompanhado de elitismo cultural.
A única coisa que me preocupa é a interpretação delas sobre as minhas letras, eu faço sátira por sátira e nunca para atacar alguém. Rolou uma problematização da “Nego Drama Parte 2” por causa do refrão “no Monza cabe oito e ela quer entrar também”, era só uma metáfora para o carro cheio e nada mais.

Quais mulheres te inspiram? Não me refiro às musas e sim as que estão em um prisma fora do campo da idealização, vistas como indivíduos, formadoras de opinião e artistas.

As mulheres que me inspiram são as de casa, saca? A minha mãe, minhas irmãs e minha sobrinha. Musicalmente falando, gosto muito da Kali Uchis, Doja Cat, Little Simz, Tássia Reis e recentemente descobri a Lauryn Hill. Eu gosto de artistas que preservam a feminilidade, traz singularidade à obra delas e isso me atrai. Sinto falta de mulheres beatmakers, videomakers, produtoras em geral, não sei se é um problema de visibilidade na minha região ou algo muito maior.

Entrando no âmbito de consumo visual, você faz muitas referências a animes. O que você gosta de assistir?

Gosto muito de Tokyo Ghoul, Soul Eater, Death Note, Naruto e Boruto, infelizmente não tenho mais tanto tempo para acompanhar animes. Eu aprendi com o anime assim como aprendi com o rap, caras como o Masashi Kishimoto me instigam a querer realizar obras com magnitude.

Chegamos à última! A maneira que nos vestimos é uma declaração artística cotidiana. O quão importante é a identidade visual para você como homem negro inserido na cultura hip-hop?

Eu venho abordando sobre discrepância social nesse disco, se você for pensar em racismo e elitismo de forma visual, faz mais parte do cotidiano um branco ostentando que um negro. Tento ascender financeiramente também para me impor, porque vivemos em uma sociedade capitalista e estar cheio de ouro nos dentes, nas mãos e no pescoço impõe respeito. Um preto que sofreu a vida toda e passou até fome, ganha dinheiro e impressiona os engravatados mesmo que sua cor sempre seja impasse.
Os negros precisam estudar e trabalhar para quebrar os paradigmas, as pessoas recorrem aos lados mais ocultos por necessidade. Precisamos nos levantar, foram muitos anos batendo cabeça e absorvendo várias fitas que não tem explicação, saca? Eu fico muito feliz quando vejo um negro em posição de destaque, isso me dá uma motivação a mais e é isso que eu quero despertar naqueles que vieram depois de mim.